Artigo publicado a 3 anos atrás no
Estadão
Sexta-feira, 12 de junho de 1998
Clube reúne aficionados
por latinhas
Chapter Brasil tem colecionadores que procuram peças
ao redor do mundo
MAURÍCIO MORAES
Com uma paixão sem limites pelas suas
"preciosidades", os maiores colecionadores de latas de cerveja do País
reúnem-se no clube Brasil Chapter. Criada há quatro anos, a associação conta com 300
membros das mais diversas idades e classes sociais.
Embora os que estejam no topo do ranking sejam
empresários, gerentes de grandes indústrias e comerciantes, o clube tenta ampliar o
quadro de filiados. "Nossa missão tem sido a de tornar esse o hobby mais popular do
Brasil", afirma o presidente, Carlos Gurgel. Para isso são promovidos encontros
mensais, com compra ou troca de latinhas entre os sócios.
Como o Brasil Chapter não tem um endereço fixo, as
choperias acabam funcionando como sede itinerante do clube. Atualmente, os encontros têm
ocorrido na Joan Sehn. O contato entre os filiados é feito por meio de um jornal mensal,
que traz informações sobre as coleções e uma seção de classificados.
A diretoria do clube é composta pelos mais antigos e
experientes colecionadores. "Tenho 5 mil latas apenas para trocas", comenta
Sérgio Lopes, vice-presidente do Brasil Chapter.
Raridades - Os recordistas, como Lopes,
valem-se das mais variadas fórmulas para conseguir exemplares raros. Viagens ao redor do
mundo, lances em leilão feitos por fax ou via Internet e troca de correspondência com
colecionadores de outros países estão entre as maneiras mais usadas para renovar a
coleção.
Às vezes, um pouco de sorte também ajuda. Lopes,
que é colecionador há 13 anos, descobriu por acaso que possuía um exemplar muito raro.
Um amigo que o visitava pediu para dar uma olhada nas latinhas. Em meio a um grande
número de peças, o amigo encontrou uma produzida em Benin, na África. "Existem só
três pessoas no Brasil que têm um exemplar fabricado naquele país", ressalta
Lopes.
Krueger - Já o presidente do clube, Carlos
Gurgel, começou com o hobby em 1978 e a intenção era acumular o maior número possível
de exemplares diferentes. A coleção cresceu muito e as peças "espalharam-se"
por todos os cantos da sua casa. "Até o porta-malas do meu carro servia de
depósito", lembra ele. Há cinco anos, Gurgel optou pela especialização e resolveu
dedicar-se à Krueger, a primeira cerveja envasada em latas no mundo.
O fabricante fechou as portas da fábrica em 1961 e a
marca também foi extinta nesse ano. De 1935, quando surgiu a primeira latinha, até os
anos 60, foram produzidos cerca de 160 exemplares distintos. O número foi fundamental na
decisão do presidente do clube. "Passei a trocar as 15 mil que juntei por aquelas
produzidas pela Krueger." Hoje, Gurgel tem quase todas as latas da marca, incluindo a
primeira fabricada.
"A raridade faz com que elas sejam um
investimento", afirma. Os preços sobem de 15% a 20% ao ano em dólar. Algumas
latinhas chegam a valer US$ 1 mil. De acordo com o colecionador, a mais antiga de todas
não tem preço. Para consegui-la, ele teve de passar dois anos juntando exemplares
produzidos na época da 2 Guerra Mundial. Todas as peças foram trocadas pela raridade com
um texano.
Benin - Alguns colecionadores, no entanto,
"lutam" para conseguir exemplares e não têm o mesmo êxito. O comerciante
Cláudio Nogueira está há quatro anos no Guinness como o brasileiro com o maior número
de latas no País e na América do Sul. São cerca de 34 mil. No entanto, uma das que ele
mais deseja fica exposta no bar Lo Spuntino, no Jabaquara. "É uma peça de Benin,
só que eles não aceitam vender nem trocar, porque parece haver uma disputa judicial em
torno dela", lamenta.
Todos os colecionadores dão uma grande importância
à modalidade "um país, uma lata" e buscam ter ao menos um exemplar de cada
nação diferente. Daí a campanha de Nogueira pela latinha de Benin. Também são
importantes as peças de países já extintos - como a Checoslováquia - e locais
peculiares, como o Alasca e a Groenlândia.
Um dos campeões brasileiros nesse ramo é o corretor
Cid Gonçalves. De 180 países ou lugares que produzem ou já produziram latas, ele tem
167 peças. Além das cores e do design, um dos principais atrativos é o aspecto
cultural. "Tenho uma lata que foi produzida em 1946, quando a Alemanha foi ocupada e
dividida", afirma Gonçalves. "No corpo da lata está impresso 'zona
americana'."
Relacionamento - Há casos em que o hobby
"salvou" relacionamentos familiares. O diretor-executivo Hugo Garcia Costa
trabalha em São Paulo, mas a sua mulher e os filhos moram no Rio. Há cinco anos, ele
não conseguia manter um diálogo com o filho. "Trocávamos algumas palavras e ele
logo ia para o quarto ver televisão", comenta.
Um dia, o jovem pediu ao pai que comprasse uma lata
de cerveja para um amigo colecionador. A história repetiu-se e pai e filho tornaram-se
colecionadores. "A aproximação ocorreu porque descobrimos um interesse comum",
diz Costa. |