As cidades brasileiras nasceram e cresceram
sem nenhum tipo de planejamento. O fato explicaria o caos urbano das atuais metrópoles.
Certo?
Errado. No álbum Imagens de Vilas e Cidades
do Brasil Colonial, o arquiteto e professor Nestor Goulart Reis Filho revela que as
cidades fundadas no período colonial foram cuidadosamente planejadas.
O livro é uma coletânea de plantas, mapas,
gravuras e desenhos de cidades brasileiras que nasceram no período colonial. Para Reis
Filho, professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São
Paulo (FAU-USP), trata-se de uma oportunidade de conhecer a História do Brasil sob outra
ótica.
"Estamos muito acostumados a aprender
nossa História por meio de textos; o livro permite conhecê-la pelos mapas e
plantas", diz o professor, lembrando da influência da arquitetura no conhecimento da
História Antiga. "A arquitetura nos permite uma ampla visão do Egito e da
Grécia."
Pesquisa - O material para o livro foi
coletado por mais de 40 anos em bibliotecas e arquivos públicos, entre eles o da Torre do
Tombo, em Portugal. São imagens raras da vida urbana de norte a sul do País entre os
séculos 15 a 18. Plantas de ruas cuidadosamente reproduzidas, gravuras detalhadas ou
simples desenhos dos arruamentos revelam a preocupação dos colonizadores com o sítio
urbano.
"É um equívoco afirmar que no Brasil
não houve planejamento urbano", diz Reis Filho. Ele cita, por exemplo, a planta de
Salvador na época da sua fundação, em 1549. As ruas foram desenhadas no formato xadrez,
prova do cuidado na disposição dos terrenos.
Grande parte das ilustrações mostra a
preocupação de Portugal com a defesa do território, revelada pelos muros erguidos nos
núcleos urbanos. Depois da fundação de cidades como Salvador e Recife, os mestres em
fortificações do reino foram enviados ao sul para construir muros de proteção nas
vilas. O da Vila de São Paulo de Piratininga foi erguido por volta de 1560, após a
transferência da população de Santo André da Borda do Campo.
No século 18, o cuidado com o urbanismo
começou a ser sentido em outras cidades do Estado, como Itu, Taubaté e São Luís do
Paraitinga. O conjunto urbano era caracterizado por terrenos de tamanhos iguais e grande
disciplina na construção das residências. "As casas tinham a mesma estatura e as
fachadas, a mesma projeção."
Para o professor, os planos de urbanização
do passado eram melhores do que os atuais. "Havia uma visão muito grande de todo o
conjunto urbano." Como a desigualdade social era menor, a diferença entre as partes
rica e pobre das cidades não era tão gritante do ponto de vista urbano. "Eles
procuravam organizar toda a população."